Custos e taxas

Quanto você paga de taxas na corretora (e como descobrir em 20 minutos)

Corretagem zero não é custo zero. Veja onde estão as taxas da corretora de investimentos (fundos, COE, renda fixa, previdência) e o roteiro de 20 minutos para calcular o seu custo real.

Jonas HalmenschlagerJonas Halmenschlager8 min de leitura

Quanto você paga de taxas na corretora? Se a sua resposta foi "nada, a corretagem é zero", esta é a pergunta que eu mais gostaria de ter feito para os meus primeiros clientes em 2019. Quase todo investidor brasileiro responde a mesma coisa, e quase todo investidor brasileiro está pagando entre 0,5% e 2,5% do patrimônio por ano sem ver uma linha disso no extrato.

Fui assessor de investimentos por anos antes de fundar a Aplicação Certa, e o modelo de remuneração do mercado é a primeira coisa que eu explico em qualquer reunião. Não porque seja irregular (não é), mas porque o que é invisível não é negociado. Este artigo mostra onde as taxas estão, quanto costumam custar e o roteiro de 20 minutos para calcular o seu número real.

Por que "corretagem zero" não quer dizer custo zero

Corretagem é a tarifa cobrada por operação de compra e venda de ações. Ela virou zero na maioria das corretoras a partir de 2019, e isso foi uma boa notícia. O problema é que a corretagem nunca foi a principal fonte de receita de uma corretora ou de um escritório de assessoria. A principal fonte é a remuneração embutida nos produtos: fundos, previdência, COE, renda fixa e operações estruturadas.

Essa remuneração não sai da sua conta corrente. Ela é descontada dentro do produto, antes da rentabilidade chegar até você. É por isso que ninguém a vê: o extrato mostra a cota do fundo já líquida da taxa de administração, e a taxa de administração já inclui a parte que volta para quem distribuiu o fundo.

Na prática, o investidor médio paga entre 0,5% e 2,5% do patrimônio por ano em taxas na corretora, dependendo da composição da carteira. Uma carteira concentrada em Tesouro Direto e ações custa perto do piso. Uma carteira cheia de fundos multimercado, COE e previdência com carregamento chega ao teto com facilidade.

Onde as taxas se escondem, produto por produto

Cada classe de ativo remunera o distribuidor de um jeito. Saber o mecanismo de cada uma é o que permite fazer a pergunta certa para quem te atende:

  • Fundos de investimento: a taxa de administração (tipicamente de 0,5% a 2% ao ano, mais 20% de performance em muitos multimercados) é cobrada da cota diariamente. Entre 30% e 60% dessa taxa volta para o distribuidor como rebate. Num fundo de 2% ao ano, algo entre 0,6% e 1,2% ao ano é receita de quem te vendeu o fundo.
  • Previdência privada: rebate da taxa de administração do fundo previdenciário, mais taxa de carregamento quando o plano tem uma. Planos antigos ainda cobram até 3% na entrada de cada aporte. Antes de contratar, use o simulador PGBL x VGBL para ver o efeito da taxa no líquido.
  • COE e operações estruturadas: o spread de estruturação fica entre 3% e 5% do valor aplicado e é cobrado na montagem. Como a operação costuma durar 18 a 24 meses e ser renovada, o custo anualizado passa de 2% ao ano.
  • Renda fixa no mercado secundário: a diferença entre a taxa que a mesa comprou o papel e a taxa que chegou até você. Um spread de 1,5% num CDB de dois anos equivale a 0,75% ao ano. A calculadora de renda fixa mostra quanto isso muda no líquido.
  • Renda variável: corretagem (quando existe), emolumentos da B3 e, em alguns casos, taxa de custódia. Aqui o custo é proporcional ao giro, não ao patrimônio: quanto mais a carteira gira, mais ela custa.
  • Tesouro Direto e caixa: custo de distribuição próximo de zero. Não por acaso, raramente são o centro de uma recomendação comissionada.

A conta que muda a conversa: 1% ao ano em 20 anos

Vou usar o exemplo que uso em reunião. Patrimônio de R$ 1 milhão, rentabilidade bruta de 11% ao ano, 20 anos de prazo. A única diferença entre os dois cenários é o custo total da carteira: 0,5% ao ano num, 1,5% ao ano no outro.

Custo total ao anoPatrimônio em 20 anosDiferença
0,5%R$ 7,37 milhões
1,5%R$ 6,14 milhõesR$ 1,22 milhão a menos

Simulação ilustrativa com rentabilidade bruta constante de 11% ao ano, sem aportes e sem imposto. Rentabilidade passada não garante rentabilidade futura.

O roteiro de 20 minutos para descobrir o seu número

Não precisa de planilha complexa. Precisa de três documentos e de uma pergunta feita por escrito. Eis o roteiro que eu passo para quem chega na Aplicação Certa vindo de outra instituição:

  • Minuto 0 a 5 — extrato de posição. Baixe a posição consolidada da corretora. Separe o patrimônio em cinco grupos: fundos, previdência, COE/estruturadas, renda fixa bancária/crédito privado e renda variável. Some cada grupo.
  • Minuto 5 a 12 — lâminas dos fundos. Para cada fundo, abra a lâmina (a corretora é obrigada a disponibilizar) e anote a taxa de administração e a de performance. Multiplique a taxa de administração pelo valor investido em cada um. Some. Esse é o seu custo bruto em fundos, e metade dele, aproximadamente, é rebate.
  • Minuto 12 a 16 — COE e renda fixa. Para COE, pergunte por escrito qual foi o spread de estruturação. Para renda fixa, compare a taxa que você recebeu com a taxa de emissão do papel na mesma data (o seu assessor tem esse dado; se não tiver, isso já é uma resposta).
  • Minuto 16 a 20 — o número. Some tudo e divida pelo patrimônio total. Esse é o seu custo percentual ao ano. Se você quiser a versão automática, o simulador de custo da assessoria faz essa conta classe por classe e ainda projeta o efeito em 10 e 20 anos.

As três perguntas que qualquer assessor deveria responder

Quando eu liderava um time de 25 assessores, a regra era simples: se o cliente pergunta quanto paga, a resposta precisa vir com número, e por escrito. A Resolução CVM 178 exige que o assessor informe a forma de remuneração quando questionado, então você tem o direito de perguntar. Estas são as três perguntas:

  • Qual é a taxa de administração de cada fundo da minha carteira, e quanto disso volta para vocês?
  • Qual foi o spread de estruturação da última operação estruturada ou COE que eu comprei?
  • Quanto a minha carteira custou, em reais, nos últimos 12 meses, somando todas as fontes?

Comissão ou fee fixo: qual custa menos?

Depende da carteira, e quem diz o contrário está vendendo um modelo. No comissionado, o custo varia conforme os produtos: pode ser baixíssimo numa carteira de Tesouro e ações, e altíssimo numa carteira de fundos e COE. No fee fixo, você paga um percentual acordado sobre o patrimônio, com nota fiscal, e o custo independe do que foi recomendado.

O fee fixo é mais transparente por construção. Se é mais barato, só a conta diz. O que eu recomendo é fazer as duas contas com os seus números antes de decidir, e nunca decidir por argumento de marketing de nenhum dos lados. Se quiser entender o que muda na relação com o assessor em cada modelo, escrevi sobre isso em o que faz um assessor de investimentos.

O número que você vai encontrar provavelmente é maior do que imaginava. Não é motivo para pânico nem para sair trocando tudo: é motivo para uma conversa com números na mesa. Se quiser fazer essa conta com um assessor da Aplicação Certa, com todas as premissas à mostra, fale com a gente. A reunião de diagnóstico não custa nada e você sai dela sabendo exatamente quanto paga hoje.

Perguntas frequentes

Quanto custa investir numa corretora com corretagem zero?

A corretagem zero elimina a tarifa por operação em ações, mas não elimina a remuneração embutida nos produtos. Fundos, previdência, COE e renda fixa continuam remunerando a corretora e o assessor por dentro do preço. Na média das carteiras brasileiras, o custo total fica entre 0,5% e 2,5% do patrimônio por ano.

Como vejo as taxas que pago na corretora?

Elas não aparecem como linha no extrato. Você precisa consultar a lâmina de cada fundo (taxa de administração e performance), pedir o spread de estruturação dos COE por escrito e comparar a taxa recebida em renda fixa com a taxa de emissão. Somando tudo e dividindo pelo patrimônio, chega-se ao custo anual.

O que é taxa de custódia?

É uma tarifa cobrada pela guarda dos ativos, historicamente aplicada em ações e Tesouro Direto. A B3 cobra 0,20% ao ano sobre o valor em Tesouro Direto (isenta até R$ 10 mil em Tesouro Selic), e a maioria das corretoras zerou a taxa de custódia própria. É um custo pequeno perto das taxas embutidas em fundos e produtos estruturados.

O assessor de investimentos é obrigado a dizer quanto ganha?

Sim. A Resolução CVM 178/2023 exige que o assessor de investimentos informe a forma de remuneração e potenciais conflitos de interesse quando questionado pelo cliente. Você pode e deve pedir os números por escrito.

Vale a pena trocar de corretora para pagar menos taxas?

Nem sempre. O custo vem majoritariamente dos produtos, não da instituição. Trocar de corretora mantendo a mesma carteira de fundos caros e COE muda pouco. O que muda o custo é revisar a composição da carteira, o que pode ser feito onde você está, se o assessor estiver disposto a mostrar os números.

Fontes

Este conteúdo é informativo e não constitui recomendação individual de investimento. Rentabilidade passada não garante rentabilidade futura. Antes de investir, avalie o seu perfil e os riscos de cada produto.

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