Histórias do mercado
Naji Nahas: o investidor que quebrou a Bolsa do Rio com dinheiro emprestado
Naji Nahas comprava ações com dinheiro emprestado. Em 1989, cheques de NCz$ 39 milhões sem fundos derrubaram a Bolsa do Rio. A conta da alavancagem e o fim.
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Naji Nahas chegou ao Brasil em 1969 e, vinte anos depois, era o investidor mais temido do pregão. Em junho de 1989, bancos se recusaram a continuar financiando suas posições, cheques de empresas ligadas a ele no total de 39 milhões de cruzados novos voltaram sem fundos, e a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, então a mais antiga do país, entrou numa crise da qual nunca saiu.
Este artigo conta quem é Naji Nahas, como funcionava a operação que a acusação chamou de manipulação, o que a Justiça decidiu (incluindo a absolvição) e por que a Bolsa do Rio sumiu. No meio, a conta que explica tudo e que qualquer investidor pode refazer: o que acontece com o seu patrimônio quando você compra ações com dinheiro dos outros.
Quem é Naji Nahas
Libanês nascido em 1947 e criado no Egito, Nahas desembarcou no Brasil em 1969 com dinheiro da família, comprou empresas de vários setores e passou a operar pesado na bolsa. Nos anos 1980, chegou a responder por uma fatia enorme dos negócios do pregão paulista; em 1983, a própria Bovespa já o advertia sobre o volume e o padrão das operações.
O tamanho impressiona até hoje. Segundo reportagem da InfoMoney com base em biografia do então presidente do conselho da Bovespa, Eduardo Rocha Azevedo, Nahas chegou a controlar cerca de 10% das ações da Vale em circulação e algo entre 5% e 6% das da Petrobras (a própria reportagem traz os dois números, no título e no corpo). Depois de atritos com a direção da bolsa de São Paulo, ele levou o grosso das operações para a Bolsa do Rio.
Como funcionava a operação: ações compradas com crédito
O motor era o crédito. Segundo as acusações, Nahas tomava empréstimos em bancos, usava o dinheiro para comprar ações e opções, e negociava com ele mesmo por meio de corretoras e de pessoas que emprestavam o nome (os "laranjas"). Comprando de um lado e do outro, as cotações subiam; com as ações valorizadas, ele conseguia mais crédito e comprava mais.
Nahas sempre negou que isso fosse manipulação. A versão dele, repetida em entrevistas e no processo, é de que a crise foi provocada por uma mudança nas regras de negociação e pelo corte de financiamento articulado pela direção da Bovespa, e economistas como Delfim Netto e Mário Henrique Simonsen depuseram a seu favor. O que nenhuma das versões contesta é o desenho: uma posição gigante, concentrada em poucos papéis e sustentada por dinheiro emprestado. Esse desenho funciona enquanto o crédito gira.
Junho de 1989: os cheques que derrubaram a Bolsa do Rio
Em 9 de junho de 1989, bancos negaram novos financiamentos a Nahas. Sem crédito para liquidar as compras, começaram a aparecer os cheques sem fundos: 39 milhões de cruzados novos, segundo InfoMoney e BP Money, emitidos por empresas do grupo, como a holding Selecta. As corretoras que tinham intermediado os negócios ficaram com a dívida, e algumas quebraram junto.
Naquele dia, o índice da Bovespa caiu 5,6% e o da Bolsa do Rio, 4,5%. Três dias depois, a CVM determinou um recesso de 24 horas nos pregões, e a Justiça proibiu Nahas e os principais envolvidos de deixar o país. Não existia circuit breaker; a solução foi simplesmente parar. Na reabertura, as ações perderam cerca de um terço do valor.
Um registro para quem gosta de conferir: um dos relatos que encontramos situa a quebra em 9 de julho, mas a data de 9 de junho aparece nas demais fontes e na cronologia dos fatos (recesso da CVM e indiciamentos de julho). Ficamos com junho.
A conta da alavancagem: por que um terço de queda vira falência
Alavancagem é comprar mais ativo do que o seu dinheiro paga, com a diferença emprestada. Se você tem 100 e compra 300 em ações, está alavancado 3 vezes. O ganho se multiplica por 3, e a perda também. A conta é uma multiplicação: perda sobre o seu capital = queda das ações × alavancagem. E a queda que zera o seu capital é 1 ÷ alavancagem.
A tabela aplica essa regra às duas quedas de 1989: os 5,6% do dia 9 de junho e o terço perdido na reabertura. Sem custo de juros, que na vida real piora tudo.
| Alavancagem | Queda que zera o seu capital | Perda no dia de −5,6% | Perda com queda de 1/3 |
|---|---|---|---|
| 1x (só dinheiro próprio) | 100% | −5,6% | −33% |
| 2x | 50% | −11,2% | −67% |
| 3x | 33% | −16,8% | −100% |
| 5x | 20% | −28,0% | −167% |
| 10x | 10% | −56,0% | −333% |
Perda sobre o capital próprio = queda × alavancagem; queda que zera = 1 ÷ alavancagem. Conta ilustrativa, sem juros do empréstimo, sem taxas e sem impostos. Simulação ilustrativa; rentabilidade passada não garante rentabilidade futura.
Naji Nahas foi condenado ou absolvido?
Os dois, em momentos diferentes, e é importante contar até o fim. Em julho de 1989, a Polícia Federal indiciou Nahas por crime contra o sistema financeiro (Lei 7.492/1986) e estelionato. Em 1997, a Justiça Federal do Rio de Janeiro o condenou a 24 anos e 8 meses de prisão por crimes contra a economia popular e o sistema financeiro. A defesa recorreu, e ele foi absolvido: a InfoMoney e a IstoÉ Dinheiro registram a absolvição em 2004. Um texto da Rede Brasil Atual, de 2012, descreve o desfecho de outra forma, atribuindo o fim do processo à prescrição; as fontes divergem nesse ponto, e a versão predominante é a absolvição. Depois disso, Nahas pediu indenização bilionária pela perda dos ativos e perdeu, por decisão unânime.
Em julho de 2008, ele voltou ao noticiário ao ser preso na Operação Satiagraha, da Polícia Federal. O STJ anulou as provas da operação em 2011, e o STF confirmou a anulação como definitiva em 2015. Na prática, Naji Nahas não tem condenação definitiva por nenhum dos dois episódios.
Um contexto jurídico: em 1989, ainda não existia o crime específico de manipulação do mercado de valores mobiliários. Ele só entrou na Lei 6.385/1976, como art. 27-C, em 2001, pela Lei 10.303. Por isso a acusação se apoiou na lei de crimes contra o sistema financeiro e na de crimes contra a economia popular. Hoje, a pena prevista para manipulação é de 1 a 8 anos de reclusão, mais multa de até três vezes a vantagem obtida.
O que aconteceu com a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro
A Bolsa do Rio, com raízes no século 19, vinha perdendo terreno para São Paulo desde os anos 1970, mas ainda disputava o posto de maior do país em 1989. Depois do episódio, a confiança e o volume de negócios despencaram, e São Paulo ficou com o mercado. As fontes divergem na data do fim: a InfoMoney fala em fechamento em 2000, quando a negociação de ações do país foi concentrada na Bovespa; outras registram 2002, quando o que restava da instituição foi absorvido pela BM&F. As duas datas são verdadeiras para etapas diferentes do mesmo encerramento. Hoje, toda a negociação de ações no Brasil passa pela B3.
A lição para o investidor de hoje: alavancagem e concentração
Pouca gente hoje compra 10% da Vale com dinheiro de banco. Mas a alavancagem aparece em formas bem mais discretas: operação a termo, compra na margem, venda de opções descoberta, fundos que usam derivativos para multiplicar a exposição, empréstimo com garantia da carteira para comprar mais da mesma coisa. Nenhum desses instrumentos é proibido nem necessariamente errado. O problema é usá-los sem saber, ou sem fazer a conta da tabela acima com a queda que o mercado já mostrou que pode acontecer.
A outra metade da história de Nahas é a concentração: poucos papéis, uma só bolsa, uma só fonte de crédito. Quem já foi machucado por um banco ou assessoria conhece a versão moderna: a carteira inteira no mesmo emissor, no mesmo tipo de produto ou no mesmo prazo, porque era o que estava na prateleira naquele mês.
Na Aplicação Certa, essas são duas perguntas que fazemos em toda análise de carteira: existe alavancagem, mesmo que embutida num produto? E qual é a maior concentração (emissor, setor, prazo)? O Raio-X da Carteira responde as duas por escrito. Se o assunto é prazo e resgate, o guia carteira travada e sem liquidez ajuda a separar o que está livre do que está preso, e o artigo sobre o confisco da poupança no Plano Collor conta a outra grande lição de 1989–1990 sobre liquidez. Para ver como o tempo, e não a alavancagem, faz o patrimônio crescer, use a calculadora de juros compostos.
A história de Naji Nahas costuma ser contada como a de um gênio ou a de um vilão. A parte útil é mais simples: uma posição concentrada, financiada com crédito de terceiros, depende de alguém continuar emprestando. No dia em que o crédito para, a conta da alavancagem aparece inteira, para o especulador e para quem estava do lado dele.
Se quiser saber se a sua carteira tem alavancagem embutida ou concentração demais em um só emissor, peça o Raio-X da Carteira ou fale com a nossa equipe. Devolvemos a análise por escrito antes de qualquer transferência e, se a carteira estiver bem montada, a gente diz. Conteúdo informativo; não é recomendação individual de investimento.
Perguntas frequentes
Quem é Naji Nahas?
Naji Nahas é um empresário e investidor libanês, nascido em 1947 e criado no Egito, que chegou ao Brasil em 1969. Ficou conhecido como o homem que quebrou a Bolsa do Rio, depois que cheques sem fundos de empresas ligadas a ele, no total de NCz$ 39 milhões, desencadearam a crise de junho de 1989.
Como Naji Nahas quebrou a Bolsa do Rio?
Ele mantinha posições enormes em ações como Vale e Petrobras, financiadas com empréstimos bancários. Quando os bancos cortaram o crédito em junho de 1989, as compras não foram pagas, os cheques voltaram sem fundos, corretoras ficaram com a dívida e a bolsa precisou suspender os negócios. Na reabertura, as ações perderam cerca de um terço do valor.
Naji Nahas foi preso ou condenado?
Foi condenado em 1997 pela Justiça Federal do Rio a 24 anos e 8 meses de prisão, mas foi absolvido em recurso, com registro da absolvição em 2004. Em 2008 foi preso na Operação Satiagraha, cujas provas foram anuladas pelo STJ em 2011, decisão confirmada pelo STF em 2015.
O que aconteceu com a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro?
A bolsa perdeu volume e relevância depois de 1989 e nunca se recuperou. A negociação de ações foi concentrada na Bovespa em 2000, e a instituição foi absorvida pela BM&F em 2002. Hoje toda a negociação de ações no Brasil passa pela B3.
O que é alavancagem na bolsa?
É comprar mais ativos do que o próprio dinheiro permite, usando recursos emprestados ou derivativos. Com alavancagem de 3 vezes, uma queda de 33% nas ações zera o capital próprio; com 5 vezes, basta uma queda de 20%.
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Fontes
- Lei 6.385/1976 (Lei do Mercado de Valores Mobiliários), art. 27-C: manipulação de mercado como crime, incluído pela Lei 10.303/2001
- Lei 7.492/1986 (crimes contra o sistema financeiro nacional), base das acusações de 1989
- InfoMoney, "Naji Nahas: o especulador que quebrou a bolsa do Rio" (quedas de 9/6/1989, cheques de NCz$ 39 milhões, recesso determinado pela CVM)
- InfoMoney, "O caso de Naji Nahas e a quebra da bolsa do Rio" (participação em Vale e Petrobras, absolvição em 2004)
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